domingo, 4 de novembro de 2018

A FOZ E A SUA EVOLUÇÃO


FOZ



De couto beneditino a estância balnear, passando por uma efémera independência concelhia



A existência de um povoado na Foz do Douro perdese na memória do tempo.

Mas a certidão de nascimento da Foz, enquanto entidade de facto, é nos dada através de um documento régio de D. Afonso Henriques que, através dele, doou à Ordem Premonstratense o actual território da Foz, mas, como esta ordem religiosa teve, no nosso pais, uma vida breve, em 1176 voltou a doala, desta vez, à Ordem dos Beneditinos de Santo Tirso.










A Foz tornouse então couto dos frades de S. Bento e os diversos privilégios que lhes foram concedidos viriam a ser confirmados por vários monarcas tais como D. Afonso IV, D. Manuel, I e Filipe I.

Mas a Foz deve a sua fama e evolução aos transportes e as vias de comunicação.

Os transportes do Porto para a Foz, e viceversa, sofreram ao longo do tempo uma evolução natural: não só porque os meios melhoraram a nível de qualidade como também foi encurtado tempo de viagem entre a então Praça Nova (actual Praça da Liberdade)

e esta freguesia.

De todas as linhas que existiram, a mais curiosa, para os dias

de hoje, talvez seja a que se denominou o “Carroção”; No dizer de Ramalho Ortigão, tratavase de um pequeno prédio com quatro rodas, puxado por uma junta de bois, onde, dentro, havia duas bancadas paralelas em que os viajantes se sentavam.

No lado de fora, sobre uma faixa de cor alegre, liase o nome

do proprietário — Manuel José Oliveira — conhecido por toda

a gente pelo nome de Manel Zé.

Depois do Carroção, surgiu o charabanc, uma espécie de carruagem

com assentos laterais onde se sentavam várias pessoas.

Outro carro famoso foi o Ripert, puxado por cavalos, que neste tempo representou um grande avanço nas comunicações entre o Porto e a Foz. Em 1870, o então barão da Trovisqueira foi autorizado pelo decreto de 15 de Agosto a estabelecer a sua custa na estrada publica entre o Porto e

a povoação da Foz, podendo prolongarse até Matosinhos, um caminhodeferro para transporte de passageiros e mercadorias, servido por cavalos.

Em 1874, a Companhia Carris de Ferro do Porto inaugurou uma carreira de americanos entre o então Largo dos Ferradores (actual Praça de Carlos Alberto) e o Largo de Cadouços, na Foz (agora Largo Capitão Pinheiro Torres de Meireles), que se manteve ate 1910.

A tracção a vapor fez a sua aparição em 1877, no trajecto entre a Boavista e Cadouços. E com tanto sucesso que, logo em 1882, o percurso foi prolongado ate Matosinhos, ficando o trajecto assim definido Boavista, Bessa, Fonte da Moura, Ervilha, Cadouços, Rua do Túnel, Rua de Gondarém, Castelo do Queijo, Matosinhos.

E agora, digam lá se não é novidade (pelo menos para muita gente) saberem que existiu uma linha de comboio a ligar a Rotunda da Boavista a Matosinhos, passando pela Foz?!…

Em meados de 1910 a linha foi suprimida, e em 1914 iniciouse o processo que visava o prolongamento da linha eléctrica da Boavista

ao Castelo do Queijo.

Toda esta evolução fez com que a relativa independência (que a distancia permitia) da Foz em relação ao Porto fosse ultrapassada e a sua integração na cidade fosse um facto.

Um decreto régio de D. Maria II (de 1836) pós fim a uma independência

concelhia que durava desde 1834. Tal situação não causou surpresa, dado que o concelho, formado por uma só freguesia (ainda por cima exígua) e sem capacidade financeira, estava condenado a desaparecer.

Durante os dois anos de autonomia, os vereadores reuniamse num edifício na Rua do Padre Luís Cabral (antiga Rua Central), junto à Capela de Santa Anastácia.

A evolução populacional da Foz ao longo de vários anos dános uma visão de como ao longo do tempo a população pouco cresceu

e de como a relativa explosão só se deu com o advento das comunicações.


Evolução populacional

1527 1300 hab.



1623 1571 hab.



1732 3312 hab.



1874 4800 hab.



1960 10 891 hab.



1981 12 964 hab.



2001 11 722 hab.



2011 10.997hab.



Como podemos verificar pelos números acima fornecidos, a Foz do Douro mais do que duplicou a sua população nos últimos cem anos, apesar de, nos últimos vinte, ter decrescido, em sintonia com o que aconteceu no resto da cidade.

Se a evolução populacional foi lenta, o urbanismo também o foi.

De facto, no século XIX, o povoado limitavase ao casario que se abrigava à sombra do Castelo e da Igreja.

 Só  numa fase posterior, finais do século XIX, inícios do século XX, mais tarde, a freguesia cresceu no sentido

norte, ao longo da então Estrada de Carreiros e Rua do Castelo do Queijo, (actuais avenidas do Brasil e Montevideu).

Posteriormente, o crescimento deuse para nascente onde, na altura, só havia pequenas aldeias (Passos era uma delas, que foi, depois, integrada na freguesia de Nevogilde).

Esta evolução fez com que a Foz do Douro se dividisse em duas:

a Foz Velha, e o seu emaranhado de ruas e ruelas, pequenas e estreitas,

e a Foz Nova, com as suas casas apalaçadas de uma rica burguesia

que descobriu as vantagens de viver junto ao mar.


segunda-feira, 29 de outubro de 2018

A EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO DO PORTO AO LONGO DOS SÉCULOS



A EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO DO PORTO AO LONGO DOS SÉCULOS



Até aos finais do século XVI a cidade do Porto é constituída apenas por uma freguesia, a da sé.
Em 1583, o então Bispo do Porto, D. Frei Marcos de lisboa, com o argumento de uma melhor administração eclesiástica e pastoral, divide a Sé em quatro novas freguesias: Sé, S. Nicolau, Vitória e s. João Baptista de Belmonte, marcando-lhes os limites de uma forma tão rigorosa que
ainda hoje podemos fazer o levantamento toponímico através deles
A freguesia de S. João Baptista de Belmonte foi efémera. De facto, passados apenas quatro anos, foi extinta e a sua população distribuída pelas freguesias da Vitória e de S. Nicolau. Com a pressão demográfica
a acentuar-se, a cidade começa a ter noção de que as muralhas começavam a ser um espartilho quanto ao desenvolvimento da urbe. Esta situação obriga, então, à criação de mais duas freguesias, estas já fora das muralhas: Miragaia e Santo Ildefonso.
Em 9 de outubro de1710 a Mesa Grande da Relação, organismo do Estado que superintendia a criação de freguesias e municípios, amplia a área da cidade com a inclusão das freguesias de Cedofeita e de Massarelos. Dada a sua enorme extensão, a freguesia de Santo
Ildefonso é dividida em duas, tendo sido criada a freguesia do Bonfim, com cerca de 295 hectares.
Não podemos esquecer que, na margem esquerda do rio, as freguesias de Mafamude e de Santa Marinha pertenciam à jurisdição do Porto. Esta situação só é alterada após o arredondamento das freguesias passando, a partir desta altura, a fazer parte do concelho de vila
Nova de Gaia.
Em inícios do século XIX o panorama do Porto é o de uma cidade com sete freguesias, numa área de10,6 Km². Em 1836 são anexadas à cidade por decreto as freguesias de s. João da Foz, Lordelo e Campanhã, altura em que são retiradas para sempre as freguesias gaienses.
Com
a evolução e o crescimento da cidade do Porto, o século XIX foi o momento áureo desta cidade a urbe tripeira atira os seus tentáculos para a zona mais ocidental da região sendo, por
isso, natural que as freguesias da zona até vissem com bons olhos a sua inclusão no Porto. Em 1837 a área da cidade aumenta com a inclusão de Paranhos, ficando a mesma com uma área de 30 km², o triplo do que contava em 1710. Em 1895 foram fixados novos limites com a junção
das freguesias de Ramalde, Aldoar e Nevogilde. Finalmente, em 1898 os lugares da freguesia de Campanhã, que ficavam na parte exterior da Circunvalação, passaram para aquela freguesia, ficando o Porto com a fisionomia que hoje ostenta: uma cidade cercada no seu crescimento
pelo mar, pelo rio e pela Circunvalação.
Hoje a cidade do Porto tem 42 Km², 15 freguesias, esqueçam a lei de 2012 que vi fazer as uniões de freguesias, e cerca de 247 000 habitantes, de acordo com o Censos de 2011, o que dá uma densidade populacional de 6 000 habitantes por km².
Mas como é que esta população evolui? E terá sido o Porto sempre a segunda cidade do País?
Como certamente entendemos, não é fácil reconstituir a evolução das gentes da cidade desde tempos medievos, pois foi só em 1864 que se realizou o primeiro censo com metodologia científica. até aqui deparamo-nos com um longo período em que são escassos os levantamentos populacionais. Esta situação obriga a diversos cruzamentos de dados, mas mantemos a noção de que a fiabilidade não é muito elevada porquanto não sabemos quais os critérios utilizados nem com que fins.
Com as ressalvas defendidas vamos tentar fazer uma análise da população ao longo dos tempos.
No século XII o Porto é a terceira cidade do futuro reino de Portugal. a que tem maior densidade populacional é a de Braga (Lisboa ainda era muçulmana), com cerca de 5 000 habitantes, seguida de Coimbra a cidade mais a sul do Portugal de então, com uma população idêntica à de Braga. Carlos de Passos diz-nos que no período da muralha dita sueva (agora sabemos que é tardo-romana) a população do Porto é de 2 000 habitantes, mas, como o autor não refere a fonte, atrevemo-nos a pensar que se tratava de um número exagerado. De salientar que a população de Portugal conta, à época, com cerca de 400 000 habitantes para uma superfície de 34 000 Km². Já com a muralha fernandina, construída em 1376, o Porto tem cerca de 8 500 habitantes, que era amplamente ultrapassado pela população de lisboa, com os seus cerca de 65 000 habitantes, o que a torna na grande cidade do reino, marcando desde essa época uma macrocefalia que perdura até aos nossos dias. a segunda cidade continua a ser Braga, com mais de 10 000 habitantes, passando o Porto a ser a terceira cidade do reino, ultrapassando Coimbra.
Em 1527-1532 D. João II decide ordenar o primeiro censo efectuado em território nacional. o mesmo mostrou que Portugal tinha, na época, cerca de 1 200 000 habitantes, sendo nessa altura o Porto já a segunda cidade do país, com 13 5oo habitantes, e Lisboa cerca de 50 000 a 55 000 habitantes (era a grande cidade da península).
Em 1622, D. Rodrigo da Cunha, no seu catálogo dos bispos do Porto, confere para o Porto 14 500 habitantes. Em 1787 foi ordenado novo censo e o padre Rebelo da Costa diz nos que o Porto tem 63 500 habitantes.
Como já referimos anteriormente, o primeiro censo efectuado com rigor científico foi em 1864 e este censo mostra que o Porto conta na época com 89 349 habitantes. no censo de 1900, e já com as 15 freguesias definitivas, o Porto tem 167 955 pessoas a residir na cidade, continuando a população a aumentar até atingir o seu pico populacional no censo de 1981, com 330 199 habitantes.
A partir desta data a população começa a decair, começando o despovoamento citadino.
A cidade no ano de 2001 apenas 262 928 habitantes. No último censo, datado de 2011, podemos apreciar um novo decréscimo populacional para os 240 000 habitantes.
Estes números mostram-nos uma descida de mais de 60 000 habitantes em duas décadas, ou seja, uma média de 3 300 por ano.
São vários os factores que sustentam esta decadência contínua e que são de natureza essencialmente económica, já que o processo de terciarização do centro levou ao abandono da população para periferia, o que provocou o aumento dos concelhos limítrofes, com
Vila Nova de Gaia à cabeça que é, sem dúvida, o concelho mais populoso do Grande Porto, contando com mais de 300 000 habitantes.
Mas este fenómeno afecta também concelhos como Matosinhos, Gondomar, Maia e Valongo, que têm vindo a aperceber-se que a sua população aumenta à custa da cidade do Porto. Este fenómeno parece não ter fim, já que o alto preço dos terrenos na cidade provoca uma
especulação imobiliária, resultando no facto de os casais mais jovens se terem visto na necessidade de procurar noutras paragens da Área Metropolitana do Porto casas a preços mais acessíveis.
Esta situação levou a que recentemente o historiador Hélder Pacheco tivesse considerado que «(1) existe uma conspiração contra a cidade por parte de todos os agentes que provocam a debandada da população.»,
É curioso assinalar que apenas as freguesias mis ocidentais da cidade (as últimas a entrar para a urbe) conseguem atenuar esta sangria. Mas este fenómeno não é exclusivo do Porto. Lisboa também sofre do mesmo problema, tendo visto a sua população decair de uma forma sistemática desde os anos 70. Hoje a sua população tem menos 260 000 habitantes em relação àquela época, beneficiando essencialmente Sintra.
Em relação ao Porto, como vai longe o tempo em que um relatório da Câmara do Porto, emanado em 1962, dizia que a cidade tinha capacidades para ter uma população de 500 000 habitantes! Hoje tem cerca de metade e com uma estrutura da população tão distorcida que
levou o conhecido geógrafo Álvaro Domingues a dizer que o Porto é uma cidade habitada por velhos-pobres e novos-ricos.
Com os processos de turistificação e gentrifricação em curso, a população da cidade está em mudança e nos próximos censos, em 2021, iremos ver reflectidos nos números esta mesma mudança.

(1) Porto de s. João, vol. II)


sábado, 6 de outubro de 2018

FUNDAÇÃO do FUTEBOL CLUBE DO PORTO


FUNDAÇÃO DO FUTEBOL CLUBE DO PORTO



FUNDAÇÃO DO FUTEBOL CLUBE DO PORTO


Existe uma polémica em torno da data de fundação do Futebol Clube do Porto. O clube foi fundado em 1893 ou em 1906, como durante anos se afirmou?
De notar que, e até aos anos 80 do século XX, as histórias sobre o Porto diziam, e o próprio clube assumia essa realidade, que a data de fundação tinha sido em 1906.
Mas nos anos 80 e numa investigação encetada por Rui Guedes, para fazer a Fotobiografia do Futebol Clube do Porto, este descobriu uma certidão em que apontava o dia de 28 de Setembro de 1893 como a data fundadora do clube. Tinha sido António Nicolau de Almeida o fundador e tanto a data da fundação assim como a cor das camisolas que os atletas iriam daí por diante ostentar não era inocente.
António Nicolau de Almeida (1873-1948) foi um negociante de vinhos, juntamente com o seu pai, e era ao mesmo tempo um apaixonado pelo desporto. Um sportsman, como na época se dizia.
A sua primeira paixão foi a velocipedia e numa revista da época podemos ler a seguinte notícia:

«Já em 1891 e 1892 um grupo de rapazes, entre os quais António Nicolau d´Almeida, Fernando Nicolau d´Almeida, Vieira da Cruz, Lacy Rumsey, Artur Rumsey e George Dagge, vinha trabalhando afincadamente a favor da velocipedia. No primeiro ano, sob o nome de Clube Excursionista, e, seguidamente, em 1892, sob nova designação de Clube de Velocipedistas do Porto, tentam levar a efeito passeios e excursões em bicicleta, algumas corridas, fazendo uma boa propaganda à custa do seu enorme entusiasmo. Àqueles vêm juntar-se outros. Eduardo Rumsey, António Leite de Faria, António Tasso de Sousa, Benedito Ferreirinha, Carlos Rothes, Guilherme Andersen, Pedro Amorim Júnior, Caetano Marques Rodrigues, Carlos Chambers e Jorge Nunes de Matos, completam o grupo dos apaixonados do pedal. O entusiasmo cresce, e, finalmente, o Velo Clube, pela junção de 44 sócios, ao Clube de Velocipedistas do Porto, passa a usar a designação de Real Velo Clube do Porto, que tinha as suas instalações no Palácio de Cristal. Durante o segundo semestre de Alteza o Senhor Infante D. Afonso e, em fins do mesmo 1893 entram muitos sócios, entre os quais figura Sua ano, Sua Majestade El-Rei concede a quinta do seu palácio da Rua do Triunfo para construção do velódromo, mostrando bem assim o grande interesse que as coisas de sport lhe mereciam.»


A quinta que a notícia se refere é o actual Museu Nacional Soares dos Reis, que durante muito tempo pertenceu à família real, era então chamado Palácio dos Carrancas.
Além do ciclismo, Nicolau de Almeida praticava remo e natação.
Em 1893 e depois de uma viagem de negócios à Inglaterra o "nosso" sportsman veio entusiasmado com o jogo que por lá estava na moda. O futebol, e tão entusiasmado estava que com alguns amigos funda no dia 28 de Setembro de 1893 o” Football Club do Porto", assim mesmo, com a grafia inglesa como na época imperava.

A data, 28 de Setembro, coincidia com o dia de aniversário, tanto do rei D. Carlos assim como a rainha D. Amélia e o azul e branco era a cor da bandeira nacional de então e como Nicolau de Almeida era monárquico, na sua óptica tudo fazia sentido.
A revista de Lisboa, Diário ilustrado, faz eco desta fundação e publica a seguinte notícia:

 «Fundou-se, no Porto, um clube denominado Foot Ball Clube do Porto, o qual vem preencher a falta que havia no norte do país de uma associação para os jogadores daquela especialidade. No segundo domingo de Outubro inaugura-se o clube oficialmente, com um grande match entre os seus sócios, no hipódromo de Matosinhos. Ouvimos dizer que serão convidados alguns clubmen de Lisboa. Que o Foot Ball Club do Porto apure um grupo rijo de jogadores e que venha medir-se ao campo com os jogadores do Club Lisbonense, do Real Ginásio Club, do grupo de Carcavellos ou de Braço de Prata, para animar os desafios de Football como já o são as corridas de cicles. Eis o que desejamos.»


Estava lançada a aventura, o Jornal de Notícias da semana seguinte dá conta do facto e noticia o seguinte:

«Realiza-se hoje, às duas horas da tarde, no antigo hipódromo um \'match\' de football, promovido pelo Foot Ball Club do Porto, tomando parte nesta diversão vinte e dois sócios do referido clube. Os dois partidos são \'capitaneados\' pelos srs. Nugent e Mackenie, distintos jogadores e sócios do referido clube. Tomam parte os senhores Fernando e António Nicolau de Almeida, Arthur, Lacy e Roberto Rumsey, Alfredo e Eduardo Kendall, Guilherme Anderson, Wlater Mac Connan, Barbosa, António Maria Machado, José Vale, Artur Ramos de Magalhães, Eduardo Sprakey, A. Johnston, Hans Peters, Jorge Hardy, Joaquim Duarte, Henrique Cunha e A. Vieira da Cruz, etc. Vêm assistir a este torneio as senhoras da colónia balnear da Foz. Este interessantíssimo jogo é uma novidade no Porto e há grande entusiasmo, tendo-se feito já algumas apostas.»
Clube Lisbonense
                                                                                           

Em 25 de Outubro desse mesmo ano Nicolau de Almeida escreveu a o presidente do Clube Lisbonense a convidá-lo para um “match”, este foi aceite e o jogo foi o 1º encontro oficial do novel clube. O presidente do Clube Lisbonense era primo de Guilherme Pinto Basto, o introdutor do futebol em Portugal.
 
Football Club do Porto
Eis a carta

"Desejando solenizar a definitiva instalação do Football Club do Porto, resolvemos organizar um “match” … …Cumpro, pois, na qualidade de presidente do Football Club do Porto, o honroso dever de convidar por intermédio de V. Exa. os valentes e adestrados jogadores do Club Lisbonense a tomarem parte no referido "match". Na esperança de sermos honrados com a anuência ao n/pedido, aguardamos o favor de uma resposta rápida p.ª n/governo. Deus guarde V. Exa. Ilmo. Sr. Presidente do Football Clube Lisbonense."


O grande jogo iria então realizar-se em Março de 1894 e em honra do Rei Carlos I que não só ofereceu a taça, como fez também questão de estar presente no Oporto Cricket and Law-Tennis Club, no Campo Alegre. Pelos portistas, jogaram Mac Geoc, F. Guimarães, A. Nugent, Arthur Dagge, Mac Millan, Ramos, Mackechnie, R. Ray e Alfredo Kendall. O FC Porto perdeu por...1+1. Bem, a corte atrasou-se e quando se instalou no "camarote" improvisado já o Lisbonense vencia por 1-0. Decidiu-se que se iria jogar mais trinta minutos e a equipa do sul marcou mais um golo, rezam as crónicas. Por 1 ou por 2, a Taça del Rey foi com os visitantes:

O Porto ainda fez mais dois jogos, um deles contra uma equipa de Aveiro, onde pontificava Mário Duarte, avô de Manuel Alegre, e pouco depois o entusiasmo esmoreceu. Porquê

Nicolau de Almeida, entretanto casou com Hilda Rumsey, irmã dos seus colegas de clube, Arthur e Lacy. Hilda não gostava de futebol, achava-o um desporto rude e agressivo, preferindo o ténis, assim conseguiu convencer Nicolau de Almeida a retirar se do clube entrando este num marasmo e estagnação.
Só em 1905 é que o Porto voltaria a jogar, desta feita com o Lisbon Cricket Club, ganhando este último por 5-2.
Nicolau de Almeida - Romualdo Torres e Monteiro da Costa
Em 1906 Monteiro da Costa relança a ideia de revitalizar o clube e convida Nicolau de Almeida a regressar ao mesmo. Esta recusa o convite e lança a ideia de Romualdo Torres, seu amigo e companheiro das lides futebolísticas de antanho, o representar na nova direcção.
Em Setembro de 1906 Monteiro da Costa refunda o clube e convida antigos jogadores, como Mackechnie, Rumsey, Wright e ainda Ernesto Sá, - que antes de 1906 também jogara em Matosinhos, no tal campo do Prado", a fazerem parte do mesmo.
Mas em abono da verdade alguns afirmam que o FC Porto de 1893 e o de 1906 não têm nada a ver um com o outro. Como? Uma cidade como o Porto, vai ter um clube em 1906 com o mesmo nome, a mesma cor na camisola, com alguns jogadores da geração de 1893, com o convite endereçado a Nicolau de Almeida para regressar ao clube, e isto tudo é coincidência?
Na História dos Três Grandes, oficialmente “Glória e Vida de Três Gigantes “que o jornal “A Bola” publicou nos anos 90 do século XX já se lançava pistas para a existência do clube antes de 1906, data da refundação, lá, pode-se ler:

"Em 1906, seria refundado por Monteiro da Costa, amigo de António Nicolau d'Almeida. Que se ligaria ao clube, acompanhando alguns dos seus amigos que, para além do nome, lhe mantivera a cor das camisolas (azuis e brancas) e a bandeira da Monarquia (...) alguns dos jogadores do Football Club do Porto como Mackechnie, Nujent ou Kendall alinharam, no Football Club do Porto refundado por Monteiro da Costa, em 1906".

António Rodrigues Telles que publicou uma história do Futebol Clube do Porto em 1933, “História do Futebol Clube do Porto, 1906-1933, vai se contradizer na mesma história ao afirmar:

"António Nicolau d'Almeida fundou...o Futebol Clube do Porto, como a carta [a Guilherme Basto] assim nos indica. Da ligação ao Futebol Clube do Porto de 1893 e o que nasceu em 1906 já se tiraram, por certo, algumas conclusões, e outras mais podem surgir.(...) Também se sabe que António Nicolau d'Almeida, afinal, acompanhou os homens do Futebol Clube do Porto depois de 1906. Foi, portanto, um homem da nossa agremiação, aquele que primeiro a sonhou! (...)

Em nossa opinião, esta necessidade de apagar os anos do clube entre 1893 e 1906 prende-se com o ambiente político da época.
Portugal tinha sofrido a humilhação britânico plasmada no Ultimatum, ou seja, a Inglaterra proibiu Portugal de lançar para a prática o famoso Mapa Cor de Rosa, a ligação entre Angola e Moçambique através dos territórios que são hoje o Malawi e a Zâmbia. Por causa desta humilhação tudo o que fosse inglês era mal visto, a Inglaterra era persona non grata para os Portugueses. O rei D. Carlos devolveu as condecorações que os seus “primos” britânicos lhe tinham dado. Tinha-se escrito um hino contra os ingleses, que terminava com a estrofe “Contra os Bretões, Marchar, Marchar”, vinha aí o futuro hino nacional.
Por tudo isto em nosso entender houve uma necessidade de apagar a história recente que relacionasse a Inglaterra com Portugal e por isso a data de 1893 foi apagada do imaginário portista até anos, anos 80.
Em face de tudo o que acima escrevemos, é meu entender que o Porto foi fundado em 1893 por António Nicolau de Almeida e refundado em 1905 por Monteiro da Costa.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Sinagoga Mekhor Haim

Sinagoga Mekhor Haim - Sinagoga Kadoorie




A Sinagoga Kadoorie foi um velho sonho, tornado realidade pelos judeus portuenses. Vai ter o seu primeiro dia de existência quando em 1928 o terreno é adquirido e a primeira pedra é lançada em 30 de Junho de 1929. Nas suas fundações e como acto simbólico foram colocadas num tubo de ferro 18 moedas portuguesas do ano de 1929. A compra do terreno só foi possível graças ao contributo de diversas pessoas de diversos países, sobressaindo a família Rothschild, pela sua generosa contribuição. A cerimónia de lançamento da primeira pedra foi acompanhada por diversas individualidades. Estiveram presentes entidades de diferentes comunidades judaicas e de entre os convidados encontrava-se o líder da comunidade de Lisboa, Mosés Amzalak.
IMG_4451Mas, apesar do optimismo que o momento proporcionava, os tempos eram de mudança. A construção de uma Sinagoga ao lado do Colégio Alemão (que na época ficava onde hoje está um empreendimento pertencente à Associação de Moradores do Campo Alegre), não agradou a muitos dos membros da comunidade alemã e, na década de trinta, tal situação não augurava nada de bom.
Na Europa, Hitler e o nazismo eram a grande realidade dos anos 30 e esse clima vai também reflectir-se na nossa cidade: as famílias germânicas que estavam à frente dos destinos do Colégio Alemão eram simpatizantes da causa nazi, pelo que vão solicitar à Câmara do Porto o plantio de um renque de árvores, que ainda hoje podemos observar, para que os meninos alemães não tivessem que, ao sair do colégio, encarar a Sinagoga.
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A instauração da ditadura militar depois do golpe de estado de 28 de Maio de 1926 vem trazer nuvens sombrias e os anos de chumbo estavam a chegar ao nosso país. O clima já não era propício a uma afirmação dos descendentes dos marranos; o regime nascido em 1933, o Estado Novo, não escondia as suas simpatias para com o nazismo emergente na Alemanha e esta realidade tinha consequências.
Entretanto a construção da Sinagoga entrava num período crítico: o dinheiro escasseava as obras ficaram paradas durante bastante tempo. Em 1933 os filhos de Elly Kadoorie, milionário judeu de Hong Kong, ofereceram 5000 libras para a conclusão das obras, com a obrigação desta ostentar o nome Kadoorie. A mulher de Sir Elly Kadoorie era uma sefardita de origem portuguesa de nome Laura Matos Moncada. Por força desta acção, o Presidente Honorário da Comunidade passou a ser, até hoje, Sir Elly Kadoorie, falecido em 1944 depois de ter estado num campo de concentração japonês.
A edificação da Sinagoga é, no fundo, o resultado das contribuições de diversas proveniências: Londres, Paris, Hong Kong, Amesterdão e outros.
Finalmente chegou o dia tão aguardado pela comunidade judaica do Porto, ou seja, a inauguração da Sinagoga Kadoorie Mekor Haïm, a 16 de Janeiro de 1938. O «Jornal de Notícias» do dia seguinte relatava: «Os israelitas do Porto inauguraram ontem a Sinagoga Mekor Haim (Fonte de Vida), na Rua Guerra Junqueiro, para serviço litúrgico da comunidade judaica (…)».
IMG_4520Na inauguração estiveram presentes numerosos representantes de diversas comunidades judaicas. Do Porto, além do Capitão Barros Basto e da sua própria família, estiveram também as famílias polacas, russas, lituanas e alemãs que constituíam o grosso da Comunidade, bem como alguns portugueses marranos já convertidos ao judaísmo oficial; de Lisboa, Mosés Amzalack e de Trás-os-Montes muitos marranos para ali se dirigiram expressamente. A humildade destes marranos era de tal ordem que muitos deles ficaram a aguardar o término do serviço religioso (cuja técnica não dominavam) nas escadas do exterior. As cerimónias religiosas foram realizadas pelos rabinos, Diesendruck e J. Hertz e pelo Sr. Samuel Rodrigues. Todo o evento seguiu o ritual hebraico e coroou os esforços de muitos anos de uma comunidade que, apesar de escassa em número, deveria estar orgulhosa do acontecido. A pequena comunidade israelita do Porto era constituída essencialmente por judeus asquenazitas, que  tinham vindo para a cidade para praticarem o comércio, vindos de diversos países do leste europeu como a Polónia, Ucrânia, Lituânia e Rússia. Não deixa de ser uma ironia, num país de sefarditas, que entre 1493 e 1496 era praticamente a Judeia do mundo, os portugueses eram a minoria na comunidade do Porto. Alguns já na época perguntavam porquê um templo com aquelas dimensões, o maior da Península Ibérica, numa região onde os judeus escasseavam…
           É nossa opinião que no entender do Capitão Barros Basto nem outra coisa poderia ser. Primeiro, o Capitão estava imbuído de que a Obra do Resgate ia trazer para a superfície todos, e seriam algumas dezenas de milhares, os descendentes de marranos que estavam disseminados pelo norte e centro do país e, como tal, a Sinagoga tinha que corresponder a esse número crescente. Segundo, o Capitão queria que os judeus se sentissem orgulhosos da sua Sinagoga, que pedia meças aos templos católicos disseminados pela cidade. Logo ali, bem perto, tinha um exemplo claro dessa realidade. A obra é da autoria dos arquitectos Augusto Santos Malta e Artur Almeida Júnior. Rogério de Azevedo também vai ter intervenção na obra, mas de uma forma discreta e já na parte final.
Para se apurar da grandeza do edifício, a Sinagoga aquando da sua inauguração possuía, como hoje, para além de uma sala de culto com 230 lugares, biblioteca, sala de aula, tipografia, apartamento do rabino e ainda um balneário ritual, mikvé em hebreu. Com a sua escola, Eben-Mussad (Pedra do Alicerce), O Patronato dos Trabalhadores, Hassut Hapoalim e o jornal «Há-Lapid» que também aqui estava instalado, era o órgão oficial da comunidade.
É considerada a maior Sinagoga da Península Ibérica. Em janeiro de 2013 a Sinagoga fez 75 anos e a comunidade celebrou o aniversário com um evento que teve a participação do presidente da Comunidade, o americano Dale Jeffries, do embaixador de Israel em Portugal e de judeus de todo o mundo. As cerimónias foram conduzidas pelos rabinos Daniel Litvak (rabino oficial da comunidade), Abraão Serruya, Eli Rosenfeld e pelos membros do comité religioso da Sinagoga, que dividem a sua vida entre o Porto e Golders Greeen, em Londres.
https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEiGZVftzI2806yPYu-Z0RvI488w8xAbdUO-6icmIn3vFah0nzKi0VEA-_8HiIO1-jjv2sior_OK7aFnCdvbv10JJnG2HlB3EJNMb470hvTYYMSngx5paQhOg-tV4Xbyt-dqS25iIk7qZYY/s1600/untitled.pngA Sinagoga tem um valor simbólico acrescido, tanto para os judeus portuenses como para o judaísmo mundial. Na lista de membros beneméritos da comunidade estão personalidades judaicas das mais relevantes do século xx, como Cecil Roth, Edouard Rothschild, Elly Kadoorie, Rabino Chefe David de Sola Pool e a comunidade conta, ainda hoje, entre os seus membros, com judeus de origens tão diversas como Egipto, Índia, Inglaterra, Bélgica, Canadá, Brasil, Rússia, Estados Unidos da América, Polónia, Espanha, Israel, Portugal, México e Venezuela.
              O edifício erguido tem um valor simbólico acrescido, tanto para os judeus portuenses como para o judaísmo mundial. Numa época onde o nazismo punha fogo a dezenas e dezenas de Sinagogas pela Europa fora, em Portugal era inaugurada uma em contraciclo. Ao longo da sua existência ela sempre foi amada, respeitada e preservada pela comunidade judaica portuense. Nunca foi vilipendiada nem dela nunca ninguém se aproveitou. Tomaram conta do «palácio», durante as frias décadas da ditadura e até hoje, famílias como Barros Basto, Kniszinsky, Beigel, Schumann, Finkelstein, Cymerman, Openhaim, Prezman, Lemchen, Flitterman, Tillo e Jeffries.
É fascinante pensar que numa cidade de uma região onde ao longo do século xx escassearam os judeus, nunca essa realidade se reflectiu na Sinagoga. Ela sempre foi tratada com esmero e enlevo pelos filhos de Israel que habitam a nossa região.











quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Capitão Barros Basto



CAPITÃO BARROS BASTO - II PARTE

Mas a nível militar as coisas também não estavam a correr melhor. O Estado Novo, nascido em 1933, estava a impor a sua marca autoritária. Aliás, o próprio movimento Obra do Resgate estava também a incomodar algumas autoridades, especialmente as religiosas pois viam que muitos dos novos judeus, que mesmo tendo sido baptizados anteriormente, estavam a fugir do seio da Igreja Católica. Então o Capitão começou a ser colocado cada vez mais longe do Porto, tendo sido exonerado do comando da Direcção da Casa da Reclusão, sua residência fixa, sendo que o escândalo que rebentou agravou mais ainda a situação.
Dada a fragilidade das provas, os processos penais instaurados, primeiro na policia de segurança pública e, posteriormente, por via de nova denúncia anónima no Tribunal Militar, foram logo derrubadas e o Capitão foi ilibado das graves acusações que lhe haviam sido imputadas. Mas o mal estava feito: o exército abre-lhe um processo disciplinar alegando que as cerimónias da circuncisão a que Barros Basto assistia eram imorais e incompatíveis com a sua situação de militar! Todo o processo ignorou propositadamente que a cerimónia e ritual da circuncisão (brit milá, em hebreu) são inerentes à religião judaica e é o sinal da aliança entre Deus e os homens. Deus, através de Abraão, indicou a este e aos seus descendentes a execução desta cerimónia. Curioso: em 1894 o oficial francês Alfred Dreyfus é acusado de traição num processo todo ele tingido de antissemitismo, que viria a ficar na história e manchada a reputação do exército francês. Três décadas depois o caso repete-se, desta vez em Portugal, mas o Capitão Barros Basto não vai ter o seu Émile Zola para o defender nas páginas dos jornais. O processo disciplinar, terminado em Julho de 1937, acarretou a sua saída compulsiva do exército. Sete meses depois, em 16 de Janeiro de 1938, vê uma das obras da sua vida, a Sinagoga, a ser inaugurada.
Já afastado do exército, vai ter uma acção determinante no período da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), ajudando centenas e centenas de judeus a fugirem do ódio nazi.
IMG_4462Entretanto os tempos eram outros, o ambiente político não era favorável à sua acção, à grandeza da obra que encetou. A Obra do Resgate não era compatível para um homem só. Lentamente esta vai caindo no esquecimento e muitos judeus voltaram a temer pela exposição pública da sua religiosidade e regressam ao anonimato de sempre e, à medida que os tempos iam passando, a sua religiosidade ia-se diluindo até se perder...
O Capitão vai ficando debilitado, desmotivado, deprimido, situação a que também não foi alheia a doença e posterior morte por tuberculose de um filho, no início da década de 50.
Barros Basto, aliás Ben-Rosh, faleceu em 1961 e foi sepultado em Amarante, sua terra natal, envergando a sua farda de militar e com a bandeira nacional cobrindo o caixão. Dois dias antes de falecer disse à sua filha: «Um dia a justiça vai ser feita». Foi, mas muito tarde.
Homem denso e culto, ao mesmo tempo provido de uma simplicidade que só os grandes sabem ter. Dizia-nos alguém que com ele conviveu, que tinha sempre uma história para contar, mesmo a pessoas de mais baixa instrução ou condição social. A sua ligação à Escola Filosófica Portuense, e ao Grupo Renascença, que teve na revista Águia o seu apogeu, mostram que o Capitão pertencia à elite do, e parafraseando um título de Sampaio Bruno, Porto Culto. Conviveu com Teixeira Rego, e Leonardo Coimbra, entre outros.
Intervém a nível cívico e politico. Empenhou-se na campanha do MUD (Movimento da Unidade Democrática), em 1945. A Obra do Resgate personificou também a resistência à Igreja Católica e ao imobilismo de uma sociedade conservadora, com atavismos de séculos.
O processo ardiloso e cobarde que lhe montaram, mostra o quanto ele era perigoso para o status quo de então e gerador de muitas invejas.
vol_sinagoga_portoTerá sido o Capitão Barros Basto algo ingénuo em algumas das suas acções? Talvez. Deverá ter pensado que o Estado Novo e hierarquia da Igreja Católica iam deixar em paz a Obra do Resgate. Mas tal não aconteceu, como sabemos.
O estranho é que, em 1978, quatro anos depois do 25 de Abril de 1974, o exército português vem insistir junto da família, que entretanto tinha começado o processo para a reabilitação do Capitão, que este tinha sido condenado por actos homossexuais! Precisamente aqueles pelos quais ele tinha sido absolvido à época. Para quem tinha conquistado uma Cruz de Guerra não merecia tanto laxismo por parte das entidades militares e em plena democracia.
Em 31 de Outubro de 2011, com o apoio do bastonário da Ordem dos Advogados Portugueses, a neta do Capitão, Sra. Dra. Isabel Ferreira Lopes, actual vice-presidente da Comunidade Israelita do Porto, deu entrada no parlamento português uma petição para reabilitar a memória de Barros Basto. Finalmente a 29 de Fevereiro de 2012 todos os parlamentares, por unanimidade, votaram a sua reabilitação e foi oficialmente concluído que o Capitão fora vítima da sua condição de judeu e, como tal, alvo de uma discriminação política e religiosa. Uma outra resolução foi votada, com o nº 11972012, em que se recomenda ao governo que proceda a uma reintegração de Barros Basto no Exército a título póstumo, «em categoria nunca inferior àquela a que o militar em causa teria direito se sobre o mesmo não tivesse sido instaurado o processo que levou ao seu afastamento». Só a persistência da Sra. Dra. Isabel Ferreira Lopes, alicerçada nas s
uas convicções, educada numa família de sólidos valores, onde era comum e face às injustiças vividas as mulheres dizerem às mais novas que as «lágrimas vertem-se para dentro».
A justiça tardou, mas chegou… «Tudo se ilumina para aquele que busca a luz», lembram-se? Uma outra divisa que o Capitão usou foi Adonai li ve-lo irá, ou seja, «O Senhor está comigo e nada receio».
Como curiosidade, o Capitão Barros Basto é tio-bisavô da conhecida actriz Daniela Ruah.


FIM